Viagem à Marselha e a busca do tarô perdido.

Marselha

Fui convidado a um colóquio sobre performance no Museu de Arte Contemporânea e na Universidade de Marselha. Marselha sempre foi para mim sinônimo de tarô. O Tarô de Marselha é o padrão clássico de tarô, é  base de todos os estudos sobre o tema. Há notícias de um baralho mais antigo no norte da Itália. E alguns médiuns e magos tentam explicar a origem egípcia  da arte do tarô, mas não há nenhum registro histórico que possa confirmar as mirações dos bruxos. Enfim, o que temos como fato é o Tarô de Marselha. As imagens de seu baralho são a referência para todas os outros que vieram depois e a cidade de Marselha foi a principal produtora e disseminadora dos tarôs ao longo dos séculos.
O convite para viajar a Marselha veio justamente quando eu estava para reiniciar o Materializador de Sonhos. Tomei isso como um sinal, não só de que deveria aceitar o convite, como que isso estaria intimamente ligado ao novo tarô no qual estou trabalhando.
Busquei na internet. Perguntei a São Google onde encontrar a história viva do tarô em Marselha. Ele respondeu com silêncio. Tentei várias combinação de palavras, tentei o Google Maps, nada. Escrevi para vários amigos. Alguns lembram do lendário Jodorowskyi, cineasta, quadrinista e psicomago. Jodô, como é chamado por seus alunos, por um longo período colocava as cartas em um café de Paris, mas agora está retirado morando na Espanha. Entro em contato com uma de suas alunas, marcamos de nos encontrar em Paris. Ela me diz não ter notícia de ninguém ou nenhum lugar em Marselha relacionado ao tarô. Certo, deve ser algo ainda mais underground, penso.
Faço uma longa viagem do Rio até Marselha, passando por Lisboa. Chego à cidade cerca de dois mil e seiscentos anos depois de sua fundação. Marselha se orgulha de ser a cidade mais antiga da França. Na verdade, muito mais antiga que a própria França. O povoamento na região remonta aos primeiros sinais de civilização na Europa. Conta o mito, que a cidade foi fundada a partir do casamento de uma princesa gaulesa com um navegante grego como um porto de comércio na época da expansão do Império Grego. Desde então, Marselha é o principal porto europeu no Mediterrâneo e sempre esteve na fronteira, no ponto de contanto entre os povos do mundo, passagem de produtos e pessoas. Aqui se viveu intensamente os grandes embates da história europeia: a dominação romana, a guerra entre católicos e protestantes, a inquisição. Presenciou massacres na revolução francesa e nas duas guerras mundiais. Além de ter sido dizimada duas vezes pela peste na idade média.
No primeiro dia, chego no fim da tarde e me alojo em um albergue. Acordo cedo e passo o dia caminhando. O centro repleto de lojas árabes. O porto velho com restaurantes para turistas e milhares de barcos de passeio. Ruínas romanas, pequenas igrejas medievais e a enorme catedral do século XIX. O museu de arquitetura contemporânea espetacular ligado por uma ponte a uma torre militar do século XII. Nada de tarô.

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La roda da fortuna

À noite, tiro as cartas do Materializador de Sonhos para alguns viajantes perdidos. A recepcionista do albergue, uma jovem argentina, diz que conhece duas pessoas que tiram cartas na cidade, mas não sabe de nenhum lugar, loja ou museu dedicado ao tarô. Divido quarto com um jovem mexicano que conta que andou por toda a cidade de bicicleta e que ao sul junto à praia a uma enorme roda da fortuna. Me empolgo e digo que era o que eu estava procurando. O jovem percebe que há algum engano. A roda da fortuna, não é a carta do tarô ou um monumento a magia, mas um brinquedo de parque de diversões, é como chamam a roda gigante no México.
Passo três dias intensos entre a Aix-Marseille Université e o Museu de Arte Contemporânea. os fundamentalistas da hegemonia do dadaísmo histórico. Alguns artistas do anos 70 redescobertos em Praga ou em Portugal. Os chinesas que entraram na performance nos anos 80 dando literalmente muito sangue para a arte. os dois Gulivers que se orgulham de ter iniciado a performance na Albania dos anos 90 depois de décadas em que tudo que não fosse o realismo socialista era proibido. Os brasileiros para lembrar que existe Tunga e que Antônio Manuel ficou pelado no MAM. Outras leituras possíveis entre a vida e a performance com artistas vindo do teatro ou da dança ao lado de Marina Abramovic que diz que “para fazer performance é preciso odiar a teatro”. Marina é citada por 4 em cada 5 palestrantes com diferentes objetivos: ora como referência, ou como prova, ora como exemplo da decadência da artes ou apenas como uma popstar onipresente. Nos intervalos, sempre que possível pergunto sobre tarô, mas é inútil, só sabem de performance, happening, ação e Abramovic.
Numa da tentativas, falo com um estudante-performer chinês. Ele me sugere que eu vá ao Escritório Central de Turismo de Marselha. “Se eles não souberem é porque não existe”, sentencia.
No dia seguinte de manhã, antes de voltar ao mundo da performance para apresentar um trabalho, vou ao tal sumo sacerdote do turismo local, um prédio antigo muito bem conservado próximo ao velho porto. Entro na fila para ser atendido por um dois seis guichês modernos. Pergunto sobre tarô, sobre místicos, sobre imprensas históricas. O jovem atendente no guichê me olha com a testa franzida. Ele diz que o Museu da Marselha Antiga está fechado, e que não sabe nada de tarô. Talvez no Museu Histórico da Cidade, ele diz.
Eu já visitara o tal Museu Histórico, não há tarôs lá. O mais próximo que cheguei é uma matriz de xilogravura de um baralho comum do século XVIII ou XIX que aparece na sessão da industrialização, junto com o sabão e a água encanada, na época em que se descobria a higiene e a produção em larga escala.

no Museu Histórico de Marselha
no Museu Histórico de Marselha

Já desiludido, no último dia do colóquio, monto minha mesa de tarô no Centro Cultural Montevideo onde fiquei hospedado e onde acontecia um festival de arte autoral (música, performance, teatro, leitura). Tiro cartas para quem aparece. A maioria das pessoas nem sabe o que é tarô e se surpreende quando falo que existe um Tarô de Marselha.
Fico pensando nos pequenos vestígios. A gráfica La Chouette (coruja, símbolo de magia) é apenas uma gráfica rápida. A livraria Kodek é um sebo de livros judaicos. A loja Cultura Reconstruída é um ateliê de roupa customisada. Os pisos das igrejas românicas lembram os floreados do tarô. A Torre que na carta do tarô está prestes a cair, aqui continua em pé desde o século XII. E é isso. O Tarô não está aqui. Ou teve que fugir, ou foi queimado na inquisição, ou não resistiu aos bombardeios da segunda guerra. Ou talvez nunca tenha estado aqui, e fosse apenas mais um produto impresso nas gráficas medievais pelo único motivo de ser Marselha o único lugar em centenas de quilômetros onde existia este serviço. Talvez seja como a batata inglesa, que é peruana, ou as tulipas holandesas que sempre foram turcas ou o bolinho de bacalhau português que todos sabemos que vem da Noruega… Talvez seja apenas mais um acaso migratório o tarô se chamar de Marselha.
Meu último dia na cidade é um domingo de sol. E Marselha é uma cidade devota aos domingos. Todo o comércio fecha, as praias ficam repletas e, no mar, muitos barcos, canoas e lanchas. Sigo o fluxo e vou à praia com um pesquisador parisiense (que me lembra muito o Obelix) e sua companheira que também parece da aldeia de Asterix. Ele é especializado no grupo fluxos e acha que os grandes performers de hoje são os publicitários. Pegamos um ônibus para direção sul, saltamos no ponto final e descemos uma ladeira procurando o mar. de um beco a outro, chegamos a um porto onde uma placa indica que todos os caminhos são à direita. Como seria de se esperar, seguimos à esquerda tentando chegar a nenhum caminho ou quem sabe a nenhum lugar. A rua termina em uma encosta de pedras onde algumas pessoas tomam sol e os pescadores dão banho em suas iscas. Não há ondas, e mergulhamos no mar transparente e bastante salgado que faz com que seja fácil flutuar.

todas as direções à direita
todas as direções à direita

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Paris

Não é mais possível ser artista em Paris. A cota de artistas possíveis na cidade já se esgotou. Nos poucos dias que visito a cidade, me contento a percorrer as ruas antigas de Atget e visitar alguns museus. Já estive por aqui outras vezes. Em 1994, durante os seis meses que andei pela Europa de mochila nas costas; em 2005, no ano do Brasil na França; e agora em 2014. Em cada uma destas três visitas fui uma vez ao Pompidou, o consagrado centro de arte. Em 94, a coleção do museu era organizada de forma cronológica, com aquele história evolutivista que nos habituamos a ouvir, onde se valorizam as rupturas e os movimentos que se sucedem na arte moderna e contemporânea com especial destaque para os momentos de protagonismo francês. Em 2005, a mesma coleção junto à novas aquisições era ordenada de maneira totalmente diversa, por conceitos. As salas eram introduzidas com títulos e textos que reuniam os artistas por procedimentos como apropriação, acumulação, descontração, e por aí a fora. Já era uma maneira menos linear, mas colocava algumas obras como ilustração das teorias. Já em 2014, coleção beira o caos. Talvez em um esforço de se manter como o certo do discurso mundial sobre as artes, talvez seja apenas um acesso de culpa pós-colonial. As salas se sucedem em um misto de cronologia e conceptualismo só que bem mais discreto que agora tentar dar conta das novas histórias da arte que emergiram nos últimos tempos. Africa contemporâneo surge como uma obrigação, afinal se são tão importantes as cópias das máscaras africanas feitas no modernismo francês, as esculturas tribais originais e os artistas africanos atuais tem de estar representados. O leste-europeu foi redescoberto, os artistas que foram ocultos pelo comunismo precisam ser mostrados. O mundo islâmico não pode ser esquecido. A América Latina também está bem representada e tem até uma sala “antropofagia” com um fac-símile de dois metros de altura da primeira edição do Manifesto Antropofágico colada na parede e um trecho de uma carta em que Mário de Andrade diz “Tarsila! Abandona Paris! Vem para a mata virgem.” ao lado de quadros da parte mais francesa do nosso modernismo. Há também uma enorme coleção da arquitetura mundial, afinal, arquitetura é arte. E tem vídeo, e pintura, e som e tudo ao mesmo tempo agora. No outro andar, a exposição dedicada ao Marcel Duchamp pintor dá um curto-circuito nas teses de rupturas da arte moderna. E agora? A frança que inventou o museu como uma ferramenta de distinção, hierarquia e poder, chega ao seu limite. Não é mais possível ser artista em Paris. Vamos à mata virgem!
Saturado de museus, visito Eve Mignot, ex-aluna de Jodorowsky. Combinamos de trocar e tirar cartas um para o outro. Ela serve um chá. Primeiro explico sobre o processo intuitivo da construção do Materializador e tiramos cartas para fazer um mapa de uma relação amorosa que ela acabara de romper. Conversamos um pouco sobre sonhos e ela me conta que um sonho que a tirou da depressão:

… Ela está na rua. Ele anda ao seu encontro. Ela não tem apara onde fugir, se sente acuada. Ele a ataca verbalmente com violência. Ela chora e o abraça e, neste instante, vê uma cruz de luz que se expande a partir de seu coração atravessando o corpo de ambos. Ela sente um enorme alívio. quando acorda está leve e alegre…

Depois é a minha vez. Ela me mostra o Tarô Jodorowsky que é uma reedição do Tarô de Marselha, só que com mais cores. Ele diz ter resgatando as cores a partir de um exemplar antiquíssimo que encontrou no Chile. Eve me explica brevemente o método de Jodô. Tiro uma carta para saber se meu bloqueio está no nível pessoal, no nível de meus pais, meus avós, bisavós, ou a um nível metafísico. E depois mais três cartas de arcanos maiores. A leitura é permeada por questões de psicologia e trauma. Choro. A leitura é muito profunda. Conto segredos. Sinto um enorme alívio. Sinto que foi para fazer este jogo que vim a França. Era este o Tarô de Marselha que eu estava buscando. Já posso voltar para casa.

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