O que é um sonho significativo?

Desde outubro, fazem 4 meses que não escrevo no livro 2. Depois do enceramento da exposição na Galeria Luciana Cavarello, fui tomados pelo projeto da Virgem do Alto do Moura e outras viagens. Apenas agora volto ao Rio de Janeiro. O ano começa agora, o ano chinês do macaco de fogo e o ano brasileiro pós carnaval.

Continuo anotando sonhos, mas como saber se um sonho é significativo? Não sei exatamente. o de hoje foi…

… estou só no apartamento do raphael na lapa. pego na parede a “placa título do Materializador”, é uma peça de cerâmica ovalada que é impressa no verso do tarô. percebo que ela está toda rachada e as partes vão se soltando na minha mão. parecem ter sido coladas com uma cola que está descascando. mas é fácil reparar, penso. vou buscar uma cola forte. no corredor encontro rodrigo braga que me mostra que a placa do seu sonho está em uma prateleira sobre os livros, ele ainda não teve tempo de pendurar. digo que é fácil colocar na parede, se tiver um prego e martelo eu mesmo posso colocar agora. o seu ateliê é neste mesmo corredor. abre uma porta e a caixa de ferramentas está no logo no canto. procuro um prego não muito grande. e prego logo sobre a prateleira com a ajuda dele…

…me sento nas almofadas no canto da sala, há muitas pessoas e estou cansado. estou descansando quando sinto um beijo na minha boca. a língua é lenta e sinuosa. depois de tanto tempo casado me pergunto como fazer para o beijo não ficar mecânico. Me dou conta que não sei quem estou beijando. percebo que é um homem, mas não vejo quem é. o beijo termina e volto a me recostar nas almofadas. logo ao lado da pessoa que beijei está rosa. ela se inclina em minha direção dizendo ” te amei, sempre te amei” e nos beijamos também. é carnaval penso e fecho os olhos quase dormindo. julio lage pergunta se não vi que era ele que eu estava beijando. ri e diz “você tem uma língua muito gostosa” …

… vou para casa. mas antes tenho que trocar pecas que estão faltando no carro…

 

Com este sonho me dei conta que é preciso retomar o livro 2 para que ele não quebre. Raphael Fonseca foi o único sonho que recebi depois de setembro. prometi entregar as placas aos sonhadores, como rodrigo, mas entreguei apenas algumas. retomarei também as trocas com os sonhadores.

Abro o caderno onde anoto os sonhos e há muitas coisas curiosas que não sei onde encaixar. Em um negocio que um associação dê prostitutas desconto para os participantes de um evento que organizo, é uma homenagem ao Ericson Pires e as meninas trabalhariam por um “preço de custo”. Em outro compro roupas rastafári e uma camisa do Raul Seixas. persigo cobras pela casa. Pego um trem errado no interior da Alemanha. vejo uma explosão em uma manifestação no centro do Rio. Me aproprio de imagens de sexo da webcan de uma mulher muito gorda pra fazer uma vídeo instalação em uma exposição em um barraco de madeira na favela. interpreto jesus em uma peca de Zé Celso no teatro Oficina. gabriel pardal me conta que vai estudar na puc pois conseguir uma bolsa de 50%. aprendo a usar uma mini câmera de vídeo. ajudo a arrumar as pizzas para a festa da domi. Vou no velório de meu avô que é arrumado como uma exposição em uma caverna. Invento um jogo com pedaços de chocolate e um outro que tem um tabuleiro em forma de disco voador e que o objetivo é gravar um documentário em uma comunidade carente. uma mulher projeta uma foto antiga de si mesma com 4 seios com a Taura.

não busco entender o que dizem. apenas anoto os nomes completando a lista de possiveis doadores de sonhos:

Ana Hupe

Anna Bella Geiger

Antônio Bernardo e Daniela

Bia Lemos

Bruno Zeni

Cabelo

Carlos Gracie

Dominique Valansi

Fernanda Anton

Fernando Cocchiarale

Ferrera Gullar

Fred Coelho

Gabriel Pardal

Helmut Batista

Jairo Dos Santos

Joana Cesar

Julia Vaz

Julio Lage

Luciana Caravello

Luiz Camillo Osório

Manuela Eichner

Marco Nanine

Marina Murta

Mateus Solano

Nelson Ricardo

Paulo Nazareth

Pelé

Rakufo

Rodrigo Amarante

Rosa Branca

Tarso Augusto

Tatiana Levy

Tunga

Eu livro

Esta é última semana da exposição Livro 2 da Lucicana Caravello. Do ponto onde estou, ainda não consigo ver todo o livro. Estou no meio do livro imerso em suas contradições e assimetrias.

Releio e sei, mais ou menos, onde ele começou. Com a proposta da segunda série do Materializador de Sonhos com sonhos de pessoas com quem eu sonhasse.

Sei que esta exposição é um capítulo deste livro, é o momento em que as 24 primeiras deste livro são mostradas pela primeira vez.

Sonhei duas vezes com esta exposição neste lugar antes de decidir trazer o projeto para cá. Várias pequenas coisas sobre este momento eu descobri nestes sonhos.

Neste último ano, busquei ativamente as pessoas com as quais eu sonhei para que me relatassem o sonhos ao Materializador. Havia também a possibilidade da venda antecipada de sonhos para pessoas que eu não tivesse sonhado (esta via só foi usada até agora uma vez, no sonho 5). A partir de agora entendo que é um novo momento e vou esperar que os sonhos me cheguem e só vou procurar uma pessoa se houver um sinal claro para isso. Tenho a lista com todas as pessoas com quem sonhei nos últimos tempos e que, por isso, estão apontadas como possíveis doadores de sonhos. Algumas que foram contactadas outras que não.

Ana Hupe

Anna Bella Geiger

Antônio Bernardo e Daniela

Bruno Zeni

Cabelo

Carlos Gracie

Fernanda Anton

Fernando Cocchiarale

Ferrari Gullar

Fred Coelho

Helmut Batista

Jairo Dos Santos

Joana Cesar

Luciana Caravello

Luiz Camillo Osório

Manuela Eichner

Marco Naninine

Mateus Solano

Nelson Ricardo

Paulo Nazareth

Pelé

Rakufo

Raphael Fonseca

Tarso Augusto

Tatiana Levy

Tunga

Publicar a lista aqui seria uma maneira de ajudar que acasos ocorram? Não sei. Do ponto onde estou não, consigo vislumbrar o fim.

Vídeo de apresentação

Fiz este vídeo para apresentar a exposição. Ele fica entre as duas salas, a do Livro 1 e a do Livro 2. Ele substitui também um “texto de parede”. No Livro 2, todos os textos estão já no livro.

Aproveitei imagens do Cinema Manual Longa Metragem, performance de 2005-2007 com dança de Jaya Pravaz e incluí músicas de Luciana Coló, Luiz Edurado Castelões e da shamã peruana Maria Sabina de uma gravação caseira de um ritual que não sei exatamente como chegou nas mãos de Jaya.

O Cinema Manual e o Materializador de sonhos, afinal, tem muito em comum.

https://vimeo.com/140470909

Chuva de estrelas

Algumas coisas que aprendi com o livro que o Cabelo me indicou, Chuva de estrelas de Peter Lamborn Wilson.

  • O livro dos sonhos mais antigo que se tem notícia foi escrito na Suméria 3.000 a.c.. Um certo Gudea, Alto sacerdote de Lagash recebe em sonho a tarefa de construir um templo.
  • Os sonhos foram escritos em placas de argila ficavam reunidas nas bibliotecas da Mesopotâmia, edubba, que significa literalmente “casa de placas”.
  • A deusa padroeira das edubbas e da escrita era Nidaba e a deusa que interpretava sonhos se chama Nanshe.
  • A escrita é uma maneira de pensar que consegue separar as coisas de sua imagem. Assim com os sonhos são claramente separado das coisas reais. Sem sonho não haveria escrita. Foi o sonho que ensinou a separar a imagem da sua estrutura imediata de materialidade, o duplo da imagem, e finalmente vê-la como símbolo.
  • Com a invenção da escrita começou-se a se tratar coisas como se fossem palavras. É possível “ler” o mundo e interpretá-lo como premonição.
  • Na Suméria, havia uma casta de sacerdotes interprete de sonhos. Todo acontecimento poderia ser um presságio, porém os sonhos tinham um privilégio sobre outros presságios por serem mais fáceis de interpretar.
  • O alfabeto é o cosmos, como sabem os cabalistas, assim sendo, as letras são “imagens” de realidades celestes e arquétipos universais e não meros sinais e fonemas abstratos. Alfabeto e estrelas são dois aspectos de uma só coisa, que é “tudo” em sua unidade essencial e multiplicidade imanente. E o sonho é um local privilegiado dessa identidade, que, em sua natureza, é erótica e fantástica.
  • Uma vez que o sonho é contado, o texto e sua materialidade passa a substituir o sonho.
  • Sonho, anjos, estrelas, livro são “um”, ou, de certa forma intercambiáveis ao mesmo tempo que são autônomos entre si.
  • Maomé recebeu o Alcorão em sonho que foi escutado antes de escrito. E diversas tradições se utilizam do sonho como principal acesso ao divino.
  • É possível encomendar um sonho. Ou pedir para que algo seja revelado, ou uma pergunta respondida através do sonho.

O livro é incrível e compara uma infinidade de rituais sufis, taoístas, judaicos e de outras tradições. Eu fiquei especialmente feliz por perceber que o Materializador está intrincado em uma longuíssima tradição. Na Mesopotâmia, já haviam placas de argila que descrevem sonhos trazendo premonições. Ficaram muito presentes os nomes das deusas Nanshe e Nidada e do sacerdote Gudea. Os nomes ficaram girando na minha cabeça e me confundo com meu próprio nome. Nanshe Nidaba Nadam Gudea Guerra.

Livro escrito ao vivo – em tempo surreal.

14.08.15

Eu havia me programado para terminar todos os sonhos dia 15 de agosto, amanhã.

Digo, não os sonhos, mas o sonhos materializados pelo materializador. Isso para que entrassem na próxima exposição do Materializador na Galeria Luciana Caravello em setembro. Nos primeiros posts deste blog eu escrevo duas vezes que “não controlar” é uma das bases do trabalho. Ao mesmo tempo, estou empreendendo um esforço para entender as pistas, os sonhos e as sincronicidades. Entender é controlar. Não há como forçar uma sincronicidade.

Esta exposição não mostrará o Livro 2. Ao contrário, o a exposição será mais um capítulo do Livro 2

Este livro é escrito ao vivo. É escrito em tempo surreal.

Nos próximos dias vou tentar ordenar os mais de 80 posts deste blog. sempre seguindo as bases da proposta:

  • Seguir as regras / Não controlar
    Os procedimentos formam uma série de regras que o artista deve seguir, são as guias pelo mundo escuro.
  • Seguir a intuição / Não controlar
    Todas as regras podem ser mudadas desde que hajam sinais claros.
  • Horizontalidade / Não hierarquia.
    Tudo tem a mesma importância: sonho, blog, cerâmica, texto, imagem, colagem, livro.
    O processo tem a mesma importância do sonho materializado e do que as relações ativadas para que o processo aconteça.
  • Que seja o que for
    O projeto deve ir até onde se mostrar.

 

 

 

Vida livro

Vou ao Comuna para o lançamento do disco do Jonas Sá. Parece com alguns de meus sonhos recentes. Muitas pessoas na rua. Uma menina me oferece um cubinho de tapioca frito com molho de pimenta doce. Mariano me diz que sua banda preferida é o New Kids on the Block. Pedro Lago diz que acaba de discutir no bar porque o acusaram de furar fila. Falo do Livro 2. Vitor Paiva pede que eu sonhe com ele. Porque não?

Penso no Livro 2 como um livro acima de tudo. Penso nos encontros com quem eu sonhei como parte dos encontros, digo, como parte do livro.

E se este livro tão fragmentado fosse totalmente composto de elos e que em algum momento todos os elos pudessem ser colocados juntos na ordem correta? Mas e se alguns elos nunca se encaixem deixando buracos no livro? E se eu tentar materializar tudo que eu sonhar?  E se eu achar, ao contrário, que por ter sido sonhado já não preciso fazer?

Sonhei com a Bianca Ramoneda…

… ela nos hospedava em são paulo. a casa tem um grande quintal com árvores e bananeiras que estão com os cachos. sentamos em um banco, digo que é preciso colher e cortar as bananeiras, para que elas não deem sombra para as novas que estão nascendo e discorro sobre o manejo do bananal…

… lembro que bianca é a primeira carta do Livro 2, que fala em não ter vergonha de querer ficar bem na foto. Lembro das muitas pessoas que caminham pelos meus sonhos. Será que cada uma tem uma mensagem? Será que cada pessoa é uma carta? E se eu reencontra a pessoa é como tirar a carta novamente?

O Sonho 18 (Lisette) me impôs uma pausa. Repensar. Algo me segura pelo braço para eu não cair em um automatismo.

Encontrei o Michel Melamed na tv do restaurante (faz 20 anos que não tenho tv em casa). Ele me diz “para que pagar pelo que não usa?” Era um anúncio de operadora de telefone. Lembro da sua carta. Ele precisa contar para a irmã que tinha matado a mãe e escondido o corpo. Não tenho de pagar pelo que eu não uso. Não devo esconder o lado escuro ou não devo pagar por ele?

Cadernos cheios – Ser o poema

29.06.15

Estou terminado de materializar o sonho 18 (lisette lagnado). Sinto um puxão no meu braço.  Depois do sonho do dia 2.06,  acho que tenho de repensar. Meus cadernos no sonho estão cheios. Cabelo me mostra a escultura do soldado morto. Talvez seja o momento de parar de fazer convites. Tenho uma lista razoável de pessoas contatadas e outras a contatar. Decido que a lista está fechada. As últimas pessoas que vou contatar são as do sonho do dia 2.06.

Vou a uma celebração de abertura na Gentil Carioca. É a exposição de Paulo Paes com seres marinhos ciborgues. Ele me conta que faz uma visita semanal a outras destas instalações que estão submersas em Cabo Frio. “São a âncora que me prendem a arte” diz.

Na parede do bar em frente alguém escreveu “araponga nos nossos sonhos”. É a encruzilhada no Saara que está no sonho do Botner, é a Gentil Carioca que está no sonho do Hamburguer. Eu mesmo sonhei quase isto. Este poderia ser um sonho meu. Encontro Márco Botner e Alex Hamburguer. Estão presentes também Pedro Rocha e além de Domingos, Daniel Toledo e Bob N que tem sonhos na primeira série do Materializador. Encontro Cabelo e conto a ele o sonho do dia 2.06. Ele diz que está lendo o livro Muka – A Raiz dos Sonhos. Recomenda também o Chuva de Estrelas. O Sonho Iniciático no Sufismo e Taoismo do Peter Lamborn Wilson, o Hakim Bey.

As conversas na rua em lembram muito os sonhos que tenho tido. Pessoas me sugerem coisas, pego conversas pela metade. “Ser o poema” é o mais importante. E viver este livro, mais importante que escrevê-lo.

 

 

Cadernos cheios – Ser o poema

29.06.15

Estou terminado de materializar o sonho 18 (lisette lagnado). Sinto um puxão no meu braço.  Depois do sonho do dia 2.06,  acho que tenho de repensar. Meus cadernos no sonho estão cheios. Cabelo me mostra a escultura do soldado morto. Talvez seja o momento de parar de fazer convites. Tenho uma lista razoável de pessoas contatadas e outras a contatar. Decido que a lista está fechada. As últimas pessoas que vou contatar são as do sonho do dia 2.06.

Vou a uma celebração de abertura na Gentil Carioca. É a exposição de Paulo Paes com seres marinhos ciborgues. Ele me conta que faz uma visita semanal a outras destas instalações que estão submersas em Cabo Frio. “São a âncora que me prendem a arte” diz.

Na parede do bar em frente alguém escreveu “araponga nos nossos sonhos”. É a encruzilhada no Saara que está no sonho do Botner, é a Gentil Carioca que está no sonho do Hamburguer. Eu mesmo sonhei quase isto. Este poderia ser um sonho meu. Encontro Márco Botner e Alex Hamburguer. Estão presentes também Pedro Rocha e além de Domingos, Daniel Toledo e Bob N que tem sonhos na primeira série do Materializador. Encontro Cabelo e conto a ele o sonho do dia 2.06. Ele diz que está lendo o livro Muka – A Raiz dos Sonhos. Recomenda também o Chuva de Estrelas. O Sonho Iniciático no Sufismo e Taoismo do Peter Lamborn Wilson, o Hakim Bey.

As conversas na rua em lembram muito os sonhos que tenho tido. Pessoas me sugerem coisas, pego conversas pela metade. “Ser o poema” é o mais importante. E viver este livro, mais importante que escrevê-lo.

 

 

Viagem à Marselha e a busca do tarô perdido.

Marselha

Fui convidado a um colóquio sobre performance no Museu de Arte Contemporânea e na Universidade de Marselha. Marselha sempre foi para mim sinônimo de tarô. O Tarô de Marselha é o padrão clássico de tarô, é  base de todos os estudos sobre o tema. Há notícias de um baralho mais antigo no norte da Itália. E alguns médiuns e magos tentam explicar a origem egípcia  da arte do tarô, mas não há nenhum registro histórico que possa confirmar as mirações dos bruxos. Enfim, o que temos como fato é o Tarô de Marselha. As imagens de seu baralho são a referência para todas os outros que vieram depois e a cidade de Marselha foi a principal produtora e disseminadora dos tarôs ao longo dos séculos.
O convite para viajar a Marselha veio justamente quando eu estava para reiniciar o Materializador de Sonhos. Tomei isso como um sinal, não só de que deveria aceitar o convite, como que isso estaria intimamente ligado ao novo tarô no qual estou trabalhando.
Busquei na internet. Perguntei a São Google onde encontrar a história viva do tarô em Marselha. Ele respondeu com silêncio. Tentei várias combinação de palavras, tentei o Google Maps, nada. Escrevi para vários amigos. Alguns lembram do lendário Jodorowskyi, cineasta, quadrinista e psicomago. Jodô, como é chamado por seus alunos, por um longo período colocava as cartas em um café de Paris, mas agora está retirado morando na Espanha. Entro em contato com uma de suas alunas, marcamos de nos encontrar em Paris. Ela me diz não ter notícia de ninguém ou nenhum lugar em Marselha relacionado ao tarô. Certo, deve ser algo ainda mais underground, penso.
Faço uma longa viagem do Rio até Marselha, passando por Lisboa. Chego à cidade cerca de dois mil e seiscentos anos depois de sua fundação. Marselha se orgulha de ser a cidade mais antiga da França. Na verdade, muito mais antiga que a própria França. O povoamento na região remonta aos primeiros sinais de civilização na Europa. Conta o mito, que a cidade foi fundada a partir do casamento de uma princesa gaulesa com um navegante grego como um porto de comércio na época da expansão do Império Grego. Desde então, Marselha é o principal porto europeu no Mediterrâneo e sempre esteve na fronteira, no ponto de contanto entre os povos do mundo, passagem de produtos e pessoas. Aqui se viveu intensamente os grandes embates da história europeia: a dominação romana, a guerra entre católicos e protestantes, a inquisição. Presenciou massacres na revolução francesa e nas duas guerras mundiais. Além de ter sido dizimada duas vezes pela peste na idade média.
No primeiro dia, chego no fim da tarde e me alojo em um albergue. Acordo cedo e passo o dia caminhando. O centro repleto de lojas árabes. O porto velho com restaurantes para turistas e milhares de barcos de passeio. Ruínas romanas, pequenas igrejas medievais e a enorme catedral do século XIX. O museu de arquitetura contemporânea espetacular ligado por uma ponte a uma torre militar do século XII. Nada de tarô.

DSC04262_roda da fortuna
La roda da fortuna

À noite, tiro as cartas do Materializador de Sonhos para alguns viajantes perdidos. A recepcionista do albergue, uma jovem argentina, diz que conhece duas pessoas que tiram cartas na cidade, mas não sabe de nenhum lugar, loja ou museu dedicado ao tarô. Divido quarto com um jovem mexicano que conta que andou por toda a cidade de bicicleta e que ao sul junto à praia a uma enorme roda da fortuna. Me empolgo e digo que era o que eu estava procurando. O jovem percebe que há algum engano. A roda da fortuna, não é a carta do tarô ou um monumento a magia, mas um brinquedo de parque de diversões, é como chamam a roda gigante no México.
Passo três dias intensos entre a Aix-Marseille Université e o Museu de Arte Contemporânea. os fundamentalistas da hegemonia do dadaísmo histórico. Alguns artistas do anos 70 redescobertos em Praga ou em Portugal. Os chinesas que entraram na performance nos anos 80 dando literalmente muito sangue para a arte. os dois Gulivers que se orgulham de ter iniciado a performance na Albania dos anos 90 depois de décadas em que tudo que não fosse o realismo socialista era proibido. Os brasileiros para lembrar que existe Tunga e que Antônio Manuel ficou pelado no MAM. Outras leituras possíveis entre a vida e a performance com artistas vindo do teatro ou da dança ao lado de Marina Abramovic que diz que “para fazer performance é preciso odiar a teatro”. Marina é citada por 4 em cada 5 palestrantes com diferentes objetivos: ora como referência, ou como prova, ora como exemplo da decadência da artes ou apenas como uma popstar onipresente. Nos intervalos, sempre que possível pergunto sobre tarô, mas é inútil, só sabem de performance, happening, ação e Abramovic.
Numa da tentativas, falo com um estudante-performer chinês. Ele me sugere que eu vá ao Escritório Central de Turismo de Marselha. “Se eles não souberem é porque não existe”, sentencia.
No dia seguinte de manhã, antes de voltar ao mundo da performance para apresentar um trabalho, vou ao tal sumo sacerdote do turismo local, um prédio antigo muito bem conservado próximo ao velho porto. Entro na fila para ser atendido por um dois seis guichês modernos. Pergunto sobre tarô, sobre místicos, sobre imprensas históricas. O jovem atendente no guichê me olha com a testa franzida. Ele diz que o Museu da Marselha Antiga está fechado, e que não sabe nada de tarô. Talvez no Museu Histórico da Cidade, ele diz.
Eu já visitara o tal Museu Histórico, não há tarôs lá. O mais próximo que cheguei é uma matriz de xilogravura de um baralho comum do século XVIII ou XIX que aparece na sessão da industrialização, junto com o sabão e a água encanada, na época em que se descobria a higiene e a produção em larga escala.

no Museu Histórico de Marselha
no Museu Histórico de Marselha

Já desiludido, no último dia do colóquio, monto minha mesa de tarô no Centro Cultural Montevideo onde fiquei hospedado e onde acontecia um festival de arte autoral (música, performance, teatro, leitura). Tiro cartas para quem aparece. A maioria das pessoas nem sabe o que é tarô e se surpreende quando falo que existe um Tarô de Marselha.
Fico pensando nos pequenos vestígios. A gráfica La Chouette (coruja, símbolo de magia) é apenas uma gráfica rápida. A livraria Kodek é um sebo de livros judaicos. A loja Cultura Reconstruída é um ateliê de roupa customisada. Os pisos das igrejas românicas lembram os floreados do tarô. A Torre que na carta do tarô está prestes a cair, aqui continua em pé desde o século XII. E é isso. O Tarô não está aqui. Ou teve que fugir, ou foi queimado na inquisição, ou não resistiu aos bombardeios da segunda guerra. Ou talvez nunca tenha estado aqui, e fosse apenas mais um produto impresso nas gráficas medievais pelo único motivo de ser Marselha o único lugar em centenas de quilômetros onde existia este serviço. Talvez seja como a batata inglesa, que é peruana, ou as tulipas holandesas que sempre foram turcas ou o bolinho de bacalhau português que todos sabemos que vem da Noruega… Talvez seja apenas mais um acaso migratório o tarô se chamar de Marselha.
Meu último dia na cidade é um domingo de sol. E Marselha é uma cidade devota aos domingos. Todo o comércio fecha, as praias ficam repletas e, no mar, muitos barcos, canoas e lanchas. Sigo o fluxo e vou à praia com um pesquisador parisiense (que me lembra muito o Obelix) e sua companheira que também parece da aldeia de Asterix. Ele é especializado no grupo fluxos e acha que os grandes performers de hoje são os publicitários. Pegamos um ônibus para direção sul, saltamos no ponto final e descemos uma ladeira procurando o mar. de um beco a outro, chegamos a um porto onde uma placa indica que todos os caminhos são à direita. Como seria de se esperar, seguimos à esquerda tentando chegar a nenhum caminho ou quem sabe a nenhum lugar. A rua termina em uma encosta de pedras onde algumas pessoas tomam sol e os pescadores dão banho em suas iscas. Não há ondas, e mergulhamos no mar transparente e bastante salgado que faz com que seja fácil flutuar.

todas as direções à direita
todas as direções à direita

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Paris

Não é mais possível ser artista em Paris. A cota de artistas possíveis na cidade já se esgotou. Nos poucos dias que visito a cidade, me contento a percorrer as ruas antigas de Atget e visitar alguns museus. Já estive por aqui outras vezes. Em 1994, durante os seis meses que andei pela Europa de mochila nas costas; em 2005, no ano do Brasil na França; e agora em 2014. Em cada uma destas três visitas fui uma vez ao Pompidou, o consagrado centro de arte. Em 94, a coleção do museu era organizada de forma cronológica, com aquele história evolutivista que nos habituamos a ouvir, onde se valorizam as rupturas e os movimentos que se sucedem na arte moderna e contemporânea com especial destaque para os momentos de protagonismo francês. Em 2005, a mesma coleção junto à novas aquisições era ordenada de maneira totalmente diversa, por conceitos. As salas eram introduzidas com títulos e textos que reuniam os artistas por procedimentos como apropriação, acumulação, descontração, e por aí a fora. Já era uma maneira menos linear, mas colocava algumas obras como ilustração das teorias. Já em 2014, coleção beira o caos. Talvez em um esforço de se manter como o certo do discurso mundial sobre as artes, talvez seja apenas um acesso de culpa pós-colonial. As salas se sucedem em um misto de cronologia e conceptualismo só que bem mais discreto que agora tentar dar conta das novas histórias da arte que emergiram nos últimos tempos. Africa contemporâneo surge como uma obrigação, afinal se são tão importantes as cópias das máscaras africanas feitas no modernismo francês, as esculturas tribais originais e os artistas africanos atuais tem de estar representados. O leste-europeu foi redescoberto, os artistas que foram ocultos pelo comunismo precisam ser mostrados. O mundo islâmico não pode ser esquecido. A América Latina também está bem representada e tem até uma sala “antropofagia” com um fac-símile de dois metros de altura da primeira edição do Manifesto Antropofágico colada na parede e um trecho de uma carta em que Mário de Andrade diz “Tarsila! Abandona Paris! Vem para a mata virgem.” ao lado de quadros da parte mais francesa do nosso modernismo. Há também uma enorme coleção da arquitetura mundial, afinal, arquitetura é arte. E tem vídeo, e pintura, e som e tudo ao mesmo tempo agora. No outro andar, a exposição dedicada ao Marcel Duchamp pintor dá um curto-circuito nas teses de rupturas da arte moderna. E agora? A frança que inventou o museu como uma ferramenta de distinção, hierarquia e poder, chega ao seu limite. Não é mais possível ser artista em Paris. Vamos à mata virgem!
Saturado de museus, visito Eve Mignot, ex-aluna de Jodorowsky. Combinamos de trocar e tirar cartas um para o outro. Ela serve um chá. Primeiro explico sobre o processo intuitivo da construção do Materializador e tiramos cartas para fazer um mapa de uma relação amorosa que ela acabara de romper. Conversamos um pouco sobre sonhos e ela me conta que um sonho que a tirou da depressão:

… Ela está na rua. Ele anda ao seu encontro. Ela não tem apara onde fugir, se sente acuada. Ele a ataca verbalmente com violência. Ela chora e o abraça e, neste instante, vê uma cruz de luz que se expande a partir de seu coração atravessando o corpo de ambos. Ela sente um enorme alívio. quando acorda está leve e alegre…

Depois é a minha vez. Ela me mostra o Tarô Jodorowsky que é uma reedição do Tarô de Marselha, só que com mais cores. Ele diz ter resgatando as cores a partir de um exemplar antiquíssimo que encontrou no Chile. Eve me explica brevemente o método de Jodô. Tiro uma carta para saber se meu bloqueio está no nível pessoal, no nível de meus pais, meus avós, bisavós, ou a um nível metafísico. E depois mais três cartas de arcanos maiores. A leitura é permeada por questões de psicologia e trauma. Choro. A leitura é muito profunda. Conto segredos. Sinto um enorme alívio. Sinto que foi para fazer este jogo que vim a França. Era este o Tarô de Marselha que eu estava buscando. Já posso voltar para casa.